Nepotismo é só a ponta do iceberg

Acontece que o serviço público não deve ser encarado como o privado, até por que o povo é quem paga a conta, e todos nós somos “clientes e acionistas” da máquina estatal.
Quando o Conselho de Justiça (CNJ) resolveu acabar com o nepotismo no judiciário, mexeu num vespeiro danado. Os tribunais estaduais do país todo foram ao STF para tentar barrar a resolução do conselho, que vai levar à demissão de 2.673 parentes de magistrados contratados sem concurso público. Os presidentes de tribunais foram até as últimas conseqüências para preservar os empregos dos parentes de desembargadores, chegando a falarem em desobediência civil, estimulando os cidadãos a não respeitarem as leis. O então presidente do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, Osvaldo Stefanelo, foi um dos que mais berrou contra a resolução do conselho.
Devemos lembrar que a denominação "cargo de confiança", não que dizer de confiança do juiz, pois o Tribunal não é uma empresa privada. É um órgão público, e como tal, a confiança é em respeito ao serviço público, ou seja, a pessoa que ocupará tal cargo o exercerá com zelo e responsabilidade, inclusive denunciando as maracutaias de que tiver conhecimento, algo muito difícil que ocorra entre parentes.
A resolução vem sendo acatada, apesar de tudo. Agora que são obrigados a demitirem seus parentes, o judiciário faz propaganda de combate ao nepotismo, afirma que foram os primeiros a acabar com tal prática e que o exemplo deles deve ser seguido pelos outros poderes. Ainda bem que eles não enganam ninguém. Pela nova regra, sobrinho do cônjuge não é parente, e muitas vezes transfere-se o parente para a área administrativa do Tribunal, desvinculando-os dos gabinetes.
O Brasil brinca de república, mas na verdade vive numa monarquia, onde manda-se mais ou menos, dependendo do nível de amizade com o Rei. Alguém deve lembrar as pessoas de que não estamos mais no Brasil-colônia e de que "somos todos iguais perante a lei" (art. 5º da Constituição Federal), portanto não existe mais Corte no Brasil, onde instalava-se a parentada às custas do povo.
Segundo dados do Ministério do Planejamento, existem hoje no Brasil mais de meio milhão de cargos de livre nomeação. São os chamados ‘Cargos de Confiança’ e ‘Cargos em Comissão’. Estes cargos estão distribuídos por todos os níveis dos três poderes, e poderiam (deveriam) ser destinados a trabalhadores comuns, concursados e fiscalizados como qualquer outro servidor. E é aí que está o grande mal do serviço público brasileiro. Na verdade, nepotismo é só a ponta do iceberg.
Os cc’s são usados como moeda de troca entre os partidos, que são sustentados pelos seus filiados cc’s.
É assim que funciona: o partido (qualquer deles) arrecada o máximo de filiados para ajudar nas campanhas políticas, e em troca oferece bons cargos no serviço público. Mesmo que o partido não ganhe, sempre sobra uma secretaria ou um órgão para administrar. Depois que o filiado está trabalhando como cc, lhe é cobrado uma taxa que varia de 15 até 50% dos seus ganhos, mas não precisa ficar com pena dele, pois ele também não trabalha muito. Geralmente os cc’s só aparecem meio-turno por dia. Isso nos casos em que eles vão trabalhar, pois às vezes nem sabem onde é que fica sua sala. Mais não é nada fácil ser cc, pois tem que falar mal da administração anterior e dos funcionários concursados, puxar o saco do chefe e do cabo eleitoral, freqüentar festinhas do partido, conseguir votos entre femiliares, amigos e vizinhos, etc . Agora tenta achar um cc em época de campanha. Impossível. Estão todos na rua, ‘panfleteando’ pelas esquinas e fazendo número em comícios.
Por isso, quando tu veres aquele povo nas ruas, fazendo campanha com bandeiras, bonés e camisetas, não pense que são apaixonados pelo partido ou pelo candidato. Estão apenas defendendo o cargo que já tem, ou os que terão. A última militância verdadeiramente apaixonada que eu vi foi a do PT, mas já faz tempo.
Se alguém precisa de funcionários capacitados para algum órgão, que se faça concurso. Se o servidor concursado não for capaz de exercer suas atividades, que seja demitido e colocado outro (também concursado) em seu lugar. O servidor concursado é menos suscetível à corrupção, pois tem um vínculo maior com o estado, e é protegido caso denuncie alguém. Nunca um cc denunciaria seu chefe, pois estaria na rua no mesmo dia, sem direito algum.
Acabar com os cargos de livre nomeação é o primeiro passo para acabar-se com uma prática maléfica, mas muito comum no Brasil: a corrupção.
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